A individuação é o processo central do desenvolvimento humano. Não se trata de individualismo, e sim de autoconsciência – a unidade individuada integrada ao Todo, o Ser completo em si mesmo. Para que isso aconteça, é preciso despertar, sair do senso comum e do comportamento coletivo, e assumir a responsabilidade pela vida que nos foi entregue pelo Criador de Tudo. Isso ocorre quando alcançamos o patamar da consciência pensante, capaz de raciocinar, escolher e decidir, pelo uso da inteligência, na resolução do discernimento e da razão. A individuação, em suma, é o processo que nos conduz ao posto mais elevado da humanidade; o autoconhecimento é fundamental para a individuação.
Contudo, ao deixar de ser um ser coletivo para individuar-se, encontramos no ser humano um novo comportamento excêntrico que precede essa etapa do seu desenvolvimento, um egocentrismo que não tem relação com a individuação, mas tem a ver com seus comportamentos ainda depreciativos em relação aos seus semelhantes e ao bem comum, visando uma competição por ter mais e dominar o território alheio. Nesse sentido, há mais traços de individualismo que propriamente do processo da individuação. O individualismo centra-se no ego, produzindo assim aquilo que chamamos de egocentrismo – a consciência centrada no ego. Por causa desses comportamentos excêntricos, que são a exteriorização de desejos e paixões pela vida, particularizados em termos materialistas, podemos dizer que o ser humano se perdeu nos labirintos de seu destino. Vê-se, então, separado dos outros, defendendo seu próprio território, sua propriedade individual (material ou intelectual), seu grupo, sua religião, sua ideologia ou sua nação. O egocentrismo é uma ilusão que nos afasta do nosso verdadeiro eu, criando uma barreira ao autoconhecimento.
Para onde estamos indo? Essa pergunta fundamental surge de uma instigante inquietação interna, um chamado para o autoconhecimento. Essa inquietação é, na verdade, um impulso para a individuação, um desejo profundo de compreender nosso verdadeiro eu, para além das ilusões do ego e das distrações do mundo material. É um convite para olhar para dentro, questionar nossas crenças e valores, e descobrir o propósito único que cada um de nós carrega. Infelizmente, muitos ignoram esse chamado, apegando-se aos aspectos transitórios da vida – posses, poder e prestígio. Essa busca por validação externa, no entanto, apenas nos distancia da nossa essência e do caminho da individuação. Somente ao nos voltarmos para dentro, enfrentando nossas sombras e abraçando nossa totalidade, podemos iniciar a jornada do autoconhecimento que nos conduz à individuação.
A verdade que se busca nos fatos é, tão somente, uma interpretação subjetiva, ajustada aos interesses do egocentrismo, distante da realidade objetiva. Aquilo que é não deixa de ser por causa de nossas interpretações. A verdade, real e objetiva, está distante de nossas possibilidades; no entanto, se não começarmos a ajustar nossas lentes diretamente a ela, nunca a alcançaremos. Nossas interpretações mudam na medida do desenvolvimento de nossa inteligência e capacidade de discernimento e, camada após camada, vamos desanuviando a mente de suas ilusões, abrindo espaço às revelações da verdade. O Ser verdadeiro não é essa manifestação personificada no corpo, com nome e identidade, e sim aquilo que se manifesta de dentro dele, percebido como consciência, inteligência, bondade, compaixão e amor. Essa centelha de sabedoria é o que sobrevive à temporalidade da vida na matéria e se perpetua por eras e jornadas, em múltiplas personalidades, até alcançar sua libertação completa de toda escravidão do ego e se tornar consciência pura – Espírito. O destino, como sentido da vida, é a força de atração do Espírito Eterno. Podemos adiar pelo tempo que quisermos esse empreendimento de autoconhecimento, contudo, mais cedo ou mais tarde, todos nós seremos atraídos por essa força irresistível do Espírito Eterno e nos resignaremos a aceitar a Verdade.