A Sabedoria da Incerteza

A incerteza da vida faz constantes exigências ao nosso mecanismo de lidar com incertezas. Há basicamente dois modos de agir quando estamos às voltas com o que é incerto: aceitar ou resistir.

Aceitar significa que você permite que os eventos tenham lugar à sua volta e reage a eles espontaneamente, sem dissimulações.
 
Resistir quer dizer que você tenta mudar os eventos, transformando-os em outros, diferentes do que são na realidade, e reage a eles com reações familiares e seguras.
 
A aceitação é saudável porque permite que você se livre de qualquer estresse assim que ele ocorra; a resistência não é saudável porque acumula resíduos de frustração, falsas expectativas e desejos irrealizados.
 
“Você pode especular, pode lamentar-se, pode desejar muito, mas por mais que queira retornar e refazer sua experiência emocional de modo satisfatório, nunca poderá chegar lá de novo. Não pode mais voltar para casa. Sua casa verdadeira é este lugar, nesta hora. O presente é para agir, fazer, transformar-se e crescer”. Viscott
 
Biologicamente o seu corpo está perfeitamente preparado para viver no presente e adquirir a sua melhor alegria e satisfação no presente. Seu corpo nunca sabe qual será sua pressão arterial no momento seguinte, e por isso tem em si uma flexibilidade que permite uma larga gama de pressões. A mesma flexibilidade existe para todas as outras reações involuntárias. Esta sabedoria da incerteza, que permite que o desconhecido aconteça e o saúda como fonte de crescimento e compreensão.
 
O padrão de descargas elétricas no cérebro nunca é o mesmo duas vezes no decorrer da vida, e, no entanto esta radical incerteza permite que se tenha pensamentos novos e originais. A cada minuto quase 300 milhões de células morrem, para nunca mais serem vistas, e esta corrente de mortes é assimilada na corrente de vida mais ampla que mantém o corpo funcionando.
 
A mente, contudo, acha muito difícil aceitar a incerteza. E teme mudanças, perdas e, sobretudo, a morte. É esta a fonte da resistência, que o corpo traduz por estresse. Ao impor uma resistência mental, você cria uma ameaça com a qual seu corpo terá de lidar.
 
Ter que manter o controle é uma compulsão com raízes fincadas no medo e na ameaça. Mesmo que não consiga chegar à ameaça, a sua presença será denunciada pelo seu comportamento controlador.
 
Perder o controle é um estado extremamente desagradável para a maioria das pessoas e todos nós temos que nos esforçar para mantê-lo. Só que há uma forma saudável de exercer o controle e uma forma doentia. Saudável é estar bastante seguro de si no que diz respeito a amor-próprio, capacidade de ser amado e realizações, a ponto de os eventos exteriores não nos ameaçarem. A forma doentia é manipular as pessoas e os eventos de tal modo que as fraquezas e inseguranças fiquem disfarçadas. Você tem que ser honesto consigo mesmo para seguir o primeiro caminho; tem que conhecer seus limites em várias situações, o que pode fazer com que você se sinta fraco, mas também destaca os seus pontos fortes. O autoconhecimento é uma âncora que torna a imprevisibilidade tolerável.
 
Conselho de um sábio:
“Se me envolvo numa situação que não está dando certo, tenho fé de que haverá mais do que aprender. Ou alguém vai poder me ajudar ou o fluxo dos eventos revelará o que é necessário. Em qualquer dos casos não chegarei à solução enquanto não admitir que minha reação não é perfeita”.
 
As pessoas que querem controlar de modo doentio os outros não têm flexibilidade e humildade; insistem em se encarregar de tudo e sempre encontrar desculpas para aderir ao lado certo do conflito. Este tipo de comportamento promove a desarmonia, tanto dentro delas mesmas quanto em seu meio ambiente.
 
A sua vida pode ser tão livre quanto a sua percepção dela. Sempre que nos defrontamos com uma situação vemos o nosso passado, porque todo o evento é interpretado e as interpretações são alicerçadas no passado. O simples fato de perceber que você está colocando uma interpretação em cima de tudo, não importa o quão trivial seja, é um passo importante no sentido de se libertar do passado. Você está sempre vendo as coisas sob um determinado ponto de vista. Se discutir com alguém, por exemplo, a sustentação do seu ponto de vista torna a outra pessoa uma ameaça, enquanto que reconhecer que os dois pontos de vista opostos podem ser válidos remove o caráter de ameaça. Uma vez que você interpretou uma situação como uma ameaça, o seu corpo dará automaticamente um tipo qualquer de reação. Assim, é importante questionar suas interpretações. 
 
O único modo pelo qual você pode terminar com o estresse é percebendo o seu fim. Cinco passos são úteis para isso: 

1. Reconheça que você tem uma interpretação. Numa situação de conflito, tente dizer a você mesmo que seu ponto de vista tem limitações; Você não é dono da verdade. 

2. Ponha de lado o modo de pensar antigo. Quando se sente tenso, tome como um sinal de que está se aferrando demais ao seu ponto de vista. 

3. Olhe para as coisas com uma perspectiva nova. Você focaliza os sentimentos no seu corpo e, sempre que o faça, é inevitável que sua mente comece a ver tudo de modo diverso. 

4. Questione a sua interpretação para ver se ainda é válida. 

5. Concentre-se no processo, não no resultado. O estresse sempre aparece quando você se concentra em como alguma coisa tem de acontecer. Este é o perigo oculto de se imaginar que os eventos podem ser controlados ou forçados a produzir um determinado resultado. Para vencer esta tendência de impor um falso controle aos acontecimentos, lembre a você mesmo de que não precisa saber para onde está indo a fim de desfrutar o caminho por onde segue. 

Tente também levar as coisas com calma; às vezes uma situação é muito complexa, e a reação ao estresse começa antes que você possa perceber. Quando isto acontece, a única coisa sensata é se deixar levar; o organismo não vai retornar ao estado normal antes da reação completa.
 
Pense em alguém que feriu muito seus sentimentos e a quem você não consegue perdoar. Os cinco passos a seguir podem ajudar você:

 1. Sinto-me magoado, mas isso não quer dizer que a outra pessoa era ruim ou queria me fazer mal. Nem ela conhece todo meu passado, nem eu o dela. Sempre há um outro lado da história, a despeito da minha dor. 
 
2. Já fui magoado assim antes, e talvez por isto tenha me precipitado ao julgar este incidente. Preciso ver cada coisa como realmente é.
 
3. Não preciso me ver como vítima. Quando foi a última vez em que estive do outro lado numa situação igual? Não me senti totalmente justificado pelos meus motivos? Dei mais importância à mágoa da outra pessoa do que à minha agora?
 
4. Preciso esquecer meus sentimentos por um segundo. Como foi que a outra pessoa se sentiu? Talvez ela tenha apenas perdido o controle ou estivesse envolvida demais no seu mundo para reparar no meu sofrimento.
 
5. Este incidente pode me ajudar. Na verdade não faço questão de ficar culpando essa pessoa ou de ir à forra. Quero descobrir que tipo de coisas representam uma ameaça para mim. Quanto mais eu penso nisso, mais vejo o caso como uma oportunidade para me responsabilizar pelos meus sentimentos. Assim é mais fácil para eu perdoar, já que quem quer que me ensine alguma coisa só merece os meus agradecimentos. 
 
Ao criar o hábito de consciente e cuidadosamente examinar suas interpretações antigas segundo esta técnica, você cria um espaço para espontâneos momentos de liberdade. São nestes momentos que seu antigo modo de pensar se clareia com um insight. Com este clarão vem junto um sentido de revelação, porque você está examinando a realidade em si, não um reflexo do seu passado. Todas as coisas mais valiosas da vida amor, compaixão, beleza, perdão, inspiração devem vir até nós espontaneamente. Podemos apenas preparar o caminho para elas.
 
O passado se deposita dentro de nós em muitas intrincadas camadas. O seu mundo interior é cheio de relacionamentos complexos, pois contém não apenas o passado tal como ocorreu, como também todos os modos pelos quais você gostaria de revisá-lo. Todas as coisas que deveriam ter resultado diferente têm mesmo outro desenlace no mundo para onde você foge com suas fantasias, vinganças, anseios, mágoas, autorreprovações e culpas. Para livrar-se de todos esses subterfúgios, você precisa constatar que há um lugar mais profundo onde tudo está bem. Este santuário é a simples consciência de conforto, que não pode ser violada pelo turbilhão dos eventos. 
 
Escreva as seguintes afirmações:
 
Sou perfeito (a) do jeito como sou.
Tudo na minha vida trabalha em prol do bem.
Eu sou amado (a) e sou amor. 
 
Não pare para analisar o que escreveu, só escreva. Quando terminar, feche os olhos, deixe que venha à tona qualquer reação que surja em sua mente e depois escreva as primeiras palavras que lhe vierem na mente (escreva exatamente abaixo das afirmações). Não pare para analisar suas reações. Continue o exercício até que tenha repetido por 12 vezes. Você se surpreenderá com o quanto mudam suas reações.
 
Quando você resiste ao fluxo da vida, na verdade está resistindo a sua natureza interior, pois tudo o que nos acontece é um reflexo de quem somos. Esta não é uma afirmação mística é parte do mecanismo da percepção. Perceber é entender o significado de algo. Uma pedra não é uma pedra a menos que você esteja familiarizado com o conceito de pedra; de todo modo a pedra seria um insinuo sensorial sem sentido, como olhar para a escrita árabe ou russa quando não se entende esses idiomas.
 
Viver em um nível de consciência que diz Eu sou o amor significa viver em um nível onde o amor pode crescer.
 
A dor no presente é experimentada como mágoa;
A dor vinda do passado é relembrada como raiva;
A dor no futuro é percebida como ansiedade;
A raiva não expressada, redirecionada contra você mesmo e internalizada, é chamada de culpa;
A redução de energia que ocorre quando a raiva é internalizada gera depressão.
 
A mágoa que recalcamos dentro de nós se disfarça em raiva, ansiedade, culpa e depressão. O único modo de lidar com essas camadas de dor é descobrir que ponto é realmente sensível quando ocorre a dor, resolvê-lo e seguir em frente. Viver no presente significa ser sincero o bastante para evitar emoções fáceis, como raiva, e expor a mágoa, mais difícil de enfrentar. Quando a mágoa não é resolvida no presente, o circulo vicioso de raiva, ansiedade, culpa e depressão só tende a piorar. 
 
Exercício para aprender como sentir no presente: 

1. Entender que a mágoa é o mais básico dos sentimentos negativos. Não se pode estar no presente sem que se esteja disposto a sentir mágoa.
 
2. Esteja com as suas sensações. Resista ao impulso de rejeitar o que sente ou de transformar o que sente em raiva.
 
3. Diga o que sente à pessoa que causou a mágoa.
 
4. Resolva sua emoção e continue vivendo.
 
 
Isto pode parecer um exercício de aprendizagem do sofrimento, mas na verdade é um exercício para se conquistar a liberdade. Sentir-se magoado não é agradável, mas é real. Coloca você no tempo presente, enquanto que as respostas condicionadas de raiva, ansiedade, culpa e depressão colocam-no para fora do presente. Uma vez que você está no presente, poderá então seguir a pista de suas emoções até a sua origem, que não é a dor, e sim o amor, a compaixão, a verdade- o verdadeiro você.
 
Não há outro objetivo em sofrer, senão o de guiá-lo para a sua verdade. Em si mesma a dor de nada vale, exceto como um sinal que vai afastar você da dor. Se você deseja sentir estas coisas, tudo o que tem a fazer é ser você mesmo, porém ser você mesmo significa vencer a tendência de reprimir ou desviar suas emoções, coisa que todos nós aprendemos a fazer na primeira infância.
 
Chegar ao momento presente concentrando sua atenção na dor permite que você libere a dor assim que ela ocorrer. Esta liberação acontece naturalmente é o que o corpo quer fazer e a atenção é o poder curativo que desencadeia o processo. Atentar para os seus sentimentos o coloca numa posição de testemunha: você observa a dor sem se envolver com toda a sequencia de sentimentos secundários, como culpa, omissão e rejeição, que geralmente se seguem. No ato de testemunhar o insight passa a ser possível. É preciso distanciamento para que haja compreensão, e se você estiver envolvido na sua mágoa, não verá a razão que há por trás dela. Ninguém é capaz de feri-lo hoje sem despertar uma mágoa do seu passado.
 
À medida que você aprende a dizer, eu estou me sentindo magoado, desenvolve-se uma franqueza maior. As emoções que nos amedrontam são as complexas, porque esmagam o mecanismo natural de liberação. Você não pode simplesmente liberar uma sensação de culpa ou uma depressão. Culpa e depressão são formações secundárias que surgem uma vez que você se esqueça de liberar a mágoa que sente. Quanto mais dor você sentir honestamente, mais à vontade se sentirá com ela, porque a sua capacidade de liberá-la terá aumentado. Sentir-se à vontade com suas emoções significa que você não vai se confundir com as das outras pessoas. Em vez de culpar quem o magoa, você será capaz de perdoar. 
 
As lições deste exercício são muito profundas: 

1. Todo mundo age com base no seu próprio nível de consciência. Isto é tudo que podemos pedir de nós mesmos ou de alguma pessoa. Por mais danoso que alguém seja, está fazendo o melhor que pode, considerando-se os limites de sua consciência.
 
2. Só se pode perdoar os outros quando se é capaz de liberar a própria dor. Quanto mais completa a liberação, mais sincero o perdão.
 
3. Ninguém pode realmente magoar você a menos que você lhe dê este poder. E este poder reside em sua própria dor não resolvida. Você pode assumir o controle sobre as suas próprias emoções. Enquanto não o fizer, os seus sentimentos continuarão a ser jogados de um lado para outro ao capricho alheio.
 
4. Eventos da realidade exterior não têm poder de magoá-lo. Isto acontece quando ocorre uma interpretação na sua mente. Você pode viver além das interpretações, num estado testemunhal, a consciência pura e intocável que é você verdadeiro. A descoberta da liberdade no presente abre a porta para a experiência permanente da ausência dos limites do tempo, em que passado, presente e futuro são revelados como ilusões, se comparados à realidade verdadeira que é sempre o aqui e agora.
 
 
Trechos extraídos do livro Corpo Sem Idade, Mente Sem Fronteiras, Deepak Chopra