As Crenças - Pressuposições e Atitudes

Uma crença pode ser definida como qualquer ideia que você aceita como verdadeira – uma ideia que valida ou invalida a experiência pessoal. Os kahunas consideram as crenças padrões mais ou menos resistentes de pensamentos que são literalmente incorporados, em sua maioria absorvidos pelo corpo, e que governam ou influenciam todo comportamento mental e físico.

Pressuposições
(Paulele)

Paulele, na filosofia Huna, tem o significado de “confiança” e “parar de saltitar”, implicando um estado ou condição de segurança. As pressuposições que as pessoas têm sobre si próprias e a vida em geral são consideradas pelos kahunas a fundação sobre a qual baseiam todo o seu comportamento. As pressuposições fornecem a estrutura básica por meio da qual a experiência é medida, testada e avaliada, e a qual determina a resposta à experiência. Nessa realidade, elas proporcionam uma sensação de segurança, mesmo quando a experiência é negativa.

As pressuposições são absolutamente necessárias para que possamos operar neste mundo, e as aprendemos em sua maioria no início da vida, com nossos pais, parentes, amigos e figuras de autoridade. Uma criança tem de fazer pressuposições sobre a vida para sobreviver, e uma das primeiras é que os pais devem saber como é a vida e, portanto, as pressuposições deles devem ser válidas. Na verdade, as crianças raramente aceitam todas as pressuposições dos pais e dos outros, mas fazem escolhas por meio de algum processo interior de decisão que ninguém conhece totalmente. Numa determinada família, uma criança pode aceitar a crenças dos pais de que o mundo é um lugar perigoso. Outra criança na mesma família pode rejeitar tal ideia e achar que o mundo é um lugar amistoso; e, no entanto, essa mesma segunda criança pode aceitar a crença dos pais de que algumas pessoas são inferiores. As pressuposições aceitas se tornam os programas que determinam o comportamento, tanto mental quanto físico, e também agem como moldes para o Eu Superior formar a experiência.

As pressuposições entram por meio da mente consciente, o intérprete das experiências, embora geralmente num nível que pode ser chamado “semiconsciente”. Os kahunas não têm um conceito equivalente ao de “inconsciente” de Freud, porque para eles não existe tal coisa como a não percepção, mas apenas diferentes graus de percepção ou estados de atenção ou não atenção.

Se uma pressuposição sobre a realidade não é conscientemente rejeitada, ou se não entra em conflito direto com as pressuposições existentes, então ela é aceita como verdade pelo indivíduo. Uma vez incorporadas, as pressuposições geralmente são esquecidas, embora continuem operando. Isso não significa que estejam perdidas para a percepção consciente, mas apenas que a mente consciente já não presta mais atenção a elas. É mais ou menos como você esquecer que está usando roupa de baixo no decorrer do dia, embora sempre possa lembrar-se. No caso das pressuposições, elas se tornam um jeito tão familiar de interpretar o mundo que acabam sendo ignoradas. Os kahunas não aceitam a ideia de que as causas raízes do comportamento estão enterradas no passado ou em alguma parte da mente acessível só para o especialista treinado. Todas as crenças são acessíveis conscientemente e a qualquer momento, mas por algum motivo não queremos olhar para elas. 

A mente consciente é como uma sala escura cheia de móveis, e a percepção é como uma lanterna que só pode revelar um número limitado de itens (crenças, lembranças, pensamentos) por vez, mas com potencial de iluminar qualquer coisa na sala. Se você se acostuma a olhar em uma direção, pode esquecer as antiguidades nas prateleiras atrás; pode ignorar o papel de parede e nem olhar mais para ele; e pode ter uma gaveta cheia de coisas assustadoras que você nunca mais vai abrir, se puder evitar. Às vezes, um especialista pode ajudar você a se lembrar do que esqueceu ou a ter coragem para olhar aquilo que o assusta, mas não pode fazer nada que você mesmo não seja capaz.

Num certo sentido, a mente subconsciente é encarregada de incorporar as pressuposições em sua memória e no seu sistema comportamental. Não há o uso da vontade aqui, mas só o impulso de seguir ordens, como um computador. Uma pressuposição funciona como uma diretriz básica, e o subconsciente só pode obedecer de acordo com sua habilidade. Assagioli propôs a seguinte lei psicológica, da qual os kahunas discordariam:

“Todas as funções, e suas múltiplas combinações em complexos e subpersonalidades, adotam meios de alcançar seus objetivos sem a nossa percepção, e independentemente de nossa vontade consciente, ou até em contrariedade a ela”.

A ideia de uma batalhe de vontades entre o consciente e o subconsciente é considerada um conceito inválido, de acordo com o ensinamento kahuna. A única batalha é entre a vontade atual do consciente e os efeitos contínuos daquilo que foi desejado no passado.

Atitudes
(Kuana)

Se as pressuposições podem ser comparadas a uma fundação, as atitudes são a estrutura construída sobre essa fundação. As atitudes também podem ser chamadas de “crenças conciliatórias”, porque elas se desenvolvem como meio de conciliação com aspectos da experiência que não são perfeitamente abordados pela pressuposição. São mais específicas do que as pressuposições, e elas abordam as áreas cinzentas da experiência onde alguma crença se faz necessária para que se possa agir, mas a crença ainda é aberta à dúvidas. Como as atitudes são menos seguras que as pressuposições, as pessoas frequentemente as defendem com mais emoção. Quando questionada, uma pessoa se vê forçada a encarar suas inseguranças, e isso geralmente lhe dá a sensação de ser atacada a ponto de necessitar defesa emocional. Essa resistência a ideias ameaçadoras há muito vem sendo notada pelos psicólogos ocidentais. Freud disse:

“De fato, os psicólogos admitem, de modo geral, que a aceitação de uma nova ideia (aceitação no sentido de acreditar ou reconhecer como real) é dependente da natureza e da tendência das ideias já unidas no ego”.

Ele acrescentou também que uma ideia não compatível com as ideias existentes provocaria “uma força repelente cujo propósito seria a defesa contra essa ideia incompatível”. Como você sabe, algumas das reações mais emocionais ocorrem quando são levantadas questões sobre raça, sexo, religião e política, o que nos revela algo sobre a segurança das atitudes envolvidas.

Contudo, quando as pressuposições são questionadas, a reação geralmente é de surpresa pelo fato de algo tão óbvio ser posto em dúvida. Maltz descrevia esse tipo de caso da seguinte maneira: “Diga a um garoto em idade escolar que ele apenas ‘pensa” que não entende álgebra, e ele duvidará de sua sanidade”. Como raramente ocorre uma reação emocional forte quando uma pressuposição é questionada, alguns curandeiros kahunas identificam atitudes e pressuposições pela reação ao desafio, e adaptam o tratamento de acordo com o caso.

Atitudes derivam logicamente das pressuposições subjacentes, porque o subconsciente é profundamente lógico. Aqueles que sentem que o subconsciente é irrazoável e ilógico sempre terão dificuldade em lidar com ele. Se você, por outro lado, percebe que o subconsciente é tão lógico quanto um computador, terá a chave para criar mudança. Agora, uma vez que tenha incorporado uma pressuposição, o subconsciente criará atitudes lógicas baseadas nela para conciliar a experiência direta, mas sempre apresentará essas questões à mente consciente para aprovação, antes de convertê-la em comportamento habitual. Dependendo de como a sua mente funciona, você pode deliberar por muito tempo até aceitar a atitude, ou aceitá-la nu piscar de olhos e prontamente esquecê-la até ela lhe causar problemas.

As atitudes são logicamente derivadas, mas nem todos usam o mesmo tipo de lógica. A seguir, você encontrará visões kahunas sobre como diferentes atitudes podem surgir da mesma pressuposição básica. Nos dois casos, uma pressuposição dependente também é notada. Essa é uma pressuposição que você aceita como verdadeira a respeito da vida, mas cuja existência depende da aceitação da pressuposição básica.

Sujeito 1
Pressuposição básica: “Este é um mundo hostil”.
Pressuposição dependente: “A melhor proteção é a fuga”.
Atitudes derivativas: “Se este é um mundo hostil e melhor proteção é a fuga, então;
  • a minha melhor proteção contra a hostilidade é evitá-la;
  • devo deixar os outros fazer o que quiserem, e eu não serei molestado;
  • devo fingir que sou fraco ou super simpático para não convidar um ataque.
 
Sujeito 2
Pressuposição básica: “Este mundo é um lugar hostil”.
Pressuposição dependente: “A melhor defesa é uma boa ofensiva”.
Atitudes derivativas: “Se este é um mundo hostil e a melhor defesa é uma boa ofensiva, então;
  • minha melhor proteção contra a hostilidade é contra-atacar imediatamente;
  • devo ser suficientemente forte para me defender;
  • nunca devo demonstrar fraqueza;
  • devo suspeitar dos motivos dos outros;
  • devo obter o que eu puder antes que os outros levem tudo embora.
É evidente que estes exemplos estão simplificados para o propósito ilustrativo. Entretanto, mostra como as variadas atitudes de dois sujeitos podem resultar em personalidades bem diferentes, mesmo que os dois tenham a mesma pressuposição básica sobre a vida. Suas atitudes também governariam suas reações a doenças, relacionamentos, metas e qualquer aspecto da vida. E suas pressuposições, dizem os kahunas, garantiriam encontrar uma grande dose de hostilidade. Se você interpretar a “auto-imagem” como um conjunto de pressuposições, Maltz parece estar falando pelos kahunas, quando diz:

“A auto-imagam é uma ‘premissa’, uma base, ou uma fundação sobre a qual toda nossa personalidade, nosso comportamento e até nossas circunstâncias são construídas. Por causa disso, nossas experiências parecem verificar, e daí fortalecer nossa auto-imagem, o que acaba gerando um círculo vicioso ou beneficente”.

Texto extraído do livro “Magia e Cura Kahuna – Saúde Holística e Práticas de Cura da Plinésia”, Serge Kahili King, Ed. Madras.