Silêncio - Muito Além de Silenciar Só a Mente

Silenciar requer um anseio de silêncio vindo do seu interior. O simples fato de fazer silêncio não transforma o ser; seria unicamente o hábito de calar as palavras, pois as emoções e pensamentos, enriquecidos pelo acúmulo de energias, tomam novas forças para mover a alma através deles. Mas, buscar o silêncio interno através do silêncio externo, faz com que a energia que está sendo reservada desperte os centros espirituais da alma em vez de mover paixões.

Então, vale a pena o investimento! 

Nas primeiras tentativas rumo ao sonhado desenvolvimento espiritual, como o ser ainda não se conhece, necessita de muitas imagens, muita racionalização e de palavras explicativas para dizer a si mesmo o que quer, o que é e o que sente. 

As paixões se desdobram em pensamentos e sentimentos, que se multiplicam por sua vez sem cessar, alimentados pela força dos desejos. Nessa confusão de imagens e forças desordenadas a alma não reconhece sua identidade, esmiuçada em múltiplas tendências. No esforço por calar, aumenta, a princípio, os movimentos interiores, agitando-os. 

Mas quando o silêncio se faz hábito e se estende aos sentidos e desejos, começa a aquietar-se o lago da alma e as águas transparentes se tornam claras, revelando sua profundidade. 

O hábito do silêncio exterior se torna silêncio interior quando se extingue os pensamentos e desejos. 

1. O modo de vida interfere.

Quem vive perseguindo quimeras se afasta de si mesmo e se envolve em ilusões. A vida simples e sensata revela a futilidade dos valores temporais e ajuda a despojar-se dos ideais de possessão. Os valores temporais têm uma realidade limitada no tempo: começam e terminam. A alma que busca a união divina, persegue um valor que está além do tempo relativo. E frente à eternidade do valor espiritual, os valores temporais são vãos para a alma. 

2. É consequência da limitação das necessidades.

Não se sabe o que realmente se necessita até que se abstêm do que se pensava ser indispensável ou imprescindível. 

3. É consequência do sacrifício do coração. 

Quem se agarra aos objetos do amor perde o Amor verdadeiro. Só quando o sentimento deixa de ser um laço que ata o ser com o qual ele ama, se conhece os seres e o sentimento. Então, o amor se faz uma força libertadora. 

4. É consequência do controle da mente. A imaginação que divaga, dilui a força da alma e lhe obstrui o caminho de realizações efetivas. 

Silêncio interno não se consegue por exercícios mentais, muito menos pela força de vontade. Surge pela constante e crescente simplificação dos desejos, até o ponto em que a alma é movida por uma única ideia, pela simples força de sua própria vocação. 

A mortificação dos desejos não é um fim em si mesma, nem ocasiona necessariamente resultados espirituais, mas quando é resultado da intenção única da alma que busca a liberação, se traduz em uma simplificação interior progressiva que purifica e expande. O caudal de energias não desperdiçadas em desejos vãos se canaliza em direção às possibilidades espirituais da alma e proporciona um conhecimento crescente do que se é e do que realmente se quer. 

A mortificação dos desejos simplifica a mente, que vai despojando-se do emaranhamento de pensamentos confusos e, ao libertar-se da carga de ilusão, espelha em si, cada vez com maior perfeição, a simplicidade divina. 

As almas não passam de um certo ponto no aprendizado da oração, porque não podem ir mais além da barreira criada por suas ambições e desejos. O espelho da mente não pode refletir a luz divina se está embaçado por temores, inquietudes e desejos. 

O silêncio interno é uma prática e um resultado; é uma prática como o esforço incessante da alma para arrancar de si o supérfluo e é resultado enquanto é o estado consequente da renúncia ao supérfluo. 

O hábito do silêncio vai simplificando a mente e o coração, aliviando a imensa carga de imagens e emoções. Conduz à oração simples da alma que ora porque este é seu modo de ser e de amar. A oração adquire assim outra projeção e significado, já que não depende de palavras, figuras nem movimentos mentais. Não é o fruto de um desejo, nem se projeta por um anseio. 

É o perfume da alma que é o que é. 

Do livro "La ascética de la renuncia" de Jorge Waxemberg, Cap. II e III, Ediciones ADCEA - Buenos Aires - Fonte: http://www.redeaquarius.com