Todas as Mensagens dos Mestres Vem da Mesma Fonte?

Todos nós sabemos, por experiência própria, como é difícil encontrar todos os elementos e informações necessárias para fazermos as melhores escolhas em nossa vida, em todos os níveis, inclusive o espiritual. Essa dificuldade é especialmente crítica para aqueles que recém despertaram para a vida espiritual. Tudo é novidade!

O objetivo deste ensaio é examinar as implicações dessas promessas de aceleração do progresso espiritual, comparando as instruções da milenar tradição do caminho do discipulado que leva a Iniciações progressivas, com as doutrinas e práticas apresentadas nas mensagens atribuídas aos Mestres Ascensos.

O homem moderno não tem tempo a perder. Tudo deve ser eficiente e rápido. As pessoas sentem que as vinte e quatro horas do dia não são suficientes para realizar tudo o que desejam. A conseqüência dessa estressante corrida contra o tempo é uma preocupação crescente, quase obsessiva, com a eficiência, com formas de fazer com que as coisas possam ser realizadas mais rapidamente e com menos dispêndio de energia. Para satisfazer esse anseio por uma gratificação instantânea aparece o produto instantâneo. Surgiram então o café, o chá, o leite em pó, o chocolate e toda uma extensa gama de produtos industrializados instantâneos visando acelerar o processo de preparação e consumo dos alimentos. Esses produtos tiveram aceitação imediata pelos modernos neuróticos que acreditam no lema introduzido pelos americanos: “time is money,” tempo é dinheiro.

Mas a tendência para agilizar, acelerar e tornar quase instantânea a gratificação do consumidor não ficou restrita aos produtos industrializados. Os serviços também entraram na onda da aceleração, capitaneados pela comida rápida (fast food) oferecida pelas cadeias de restaurantes, e seguida por um número crescente de serviços, incluindo os bancários e os meios de comunicação. Mais rápido, menos esforço, maior satisfação. Esse é o lema da vida moderna.

Não é de se estranhar que a pressão para a aceleração dos resultados tenha chegado também à vida espiritual. Um número crescente de instrutores e mensageiros estão oferecendo práticas espirituais que prometem acelerar o processo evolutivo, queimando etapas e transmutando o carma. Alguns gurus prometem aos seus seguidores que poderão alcançar a iluminação em pouco tempo, às vezes em até mesmo um fim de semana, seguindo suas instruções, simplificadas e adaptadas às demandas da nova era.

É nesse contexto que verificamos o aparecimento de uma literatura especial, atribuída a Mestres Ascensos, que oferece novas instruções e regras especiais para o discípulo moderno. Com isso, o discipulado fica ao alcance de todos os interessados, sem os inconvenientes dos requisitos tradicionais de purificação e disciplina, que sempre demandaram total dedicação por longos anos, quando não muitas vidas. De acordo com essa nova dispensação, o carma poderia ser agora transcendido em poucos anos, e não precisaria mais ser inteiramente equacionado para que a Iniciação máxima fosse alcançada, permitindo ao discípulo “Ascender.”

Milhares de pessoas em todo mundo passaram a se afiliar a esses novos grupos. O processo de democratização, que inicialmente restringiu-se à universalização do voto, sendo mais tarde estendido para a universalização do ensino e das oportunidades profissionais para todos, estaria chegando agora ao último reduto tradicionalmente conservador, a vida espiritual. Essa crescente hoste de entusiastas da nova espiritualidade demonstra o mesmo entusiasmo e dedicação dos recém convertidos das religiões proféticas, e fala com otimismo sobre seu progresso espiritual e a perspectiva de talvez ascender nesta mesma vida.

Todos nós sabemos, por experiência própria, como é difícil encontrar todos os elementos e informações necessárias para fazermos as melhores escolhas em nossa vida, em todos os níveis, inclusive o espiritual. Essa dificuldade é especialmente crítica para aqueles que recém despertaram para a vida espiritual. Tudo é novidade! O objetivo deste ensaio é examinar as implicações dessas promessas de aceleração do progresso espiritual, comparando as instruções da milenar tradição do caminho do discipulado que leva a Iniciações progressivas, com as doutrinas e práticas apresentadas nas mensagens atribuídas aos Mestres Ascensos.

CONHECIMENTO DOS MESTRES
Até meados do século XIX muito pouco era conhecido no Ocidente sobre os Grandes Seres, chamados no Oriente de Mahatmas, ou Mestres de Sabedoria. No Oriente, principalmente na Índia, os Mestres já eram conhecidos há milênios nos meios dos devotos e iogues. No Ocidente, no entanto, somente os discípulos aceitos (uma diminuta parcela da população) conheciam seus Mestres, guardando essa informação de forma reservada, por respeito a esses Santos Seres e para a proteção deles.

Foi somente a partir do final do século XIX, com a fundação da Sociedade Teosófica e posteriormente com a divulgação dos escritos de H. P. Blavatsky, que o conhecimento da existência dos Mestres se espalhou nos meios esotéricos e filosóficos na Europa e nas Américas. Alguns colaboradores de Blavatsky foram contrários a essa divulgação, em virtude da tradicional reserva observada pelos discípulos com relação a comentários públicos sobre a existência de seus instrutores. Mas os tempos eram outros e os próprios Mestres contribuíram indiretamente para que sua existência fosse amplamente divulgada no Ocidente.

AS CARTAS DOS MESTRES
O principal meio de divulgação da existência e do trabalho dos Mestres foi a publicação, no início do século XX, de uma longa série de cartas escritas pelos Mestres,[2] entre 1880 a 1886, a dois ingleses, A. O. Hume e A. P. Sinnett, sendo a maior parte dirigida a esse último. Sinnett, mais tarde, utilizou o material contido nas cartas para escrever dois livros muito comentados na época: Budismo Esotérico e Mundo Oculto. Os Mestres também enviaram cartas, em menor número, a outros colaboradores seus, sendo muitas dessas coligidas e publicadas por C. Jinarajadasa, com o título de Cartas dos Mestres de Sabedoria.[3]

Essas cartas são marcos para o estabelecimento de parâmetros sobre os ensinamentos desses Grandes Seres e para o conhecimento de seus métodos de comunicação com aqueles poucos aspirantes que, apesar de não terem sido treinados no caminho ocultista, de alguma forma mereceram recebê-las. Seu valor especial está no fato de serem reconhecidas por quase todos os estudiosos como sendo de autoria dos Mestres. Algumas foram recebidas poucos minutos depois de terem sido escritas por Sinnett, no próprio verso do papel em que as perguntas tinham sido feitas. É importante frisar que a maioria das cartas foi precipitada. O Mahatma K.H. respondendo a Sinnett sobre esse processo disse: “Devo pensar bem, fotografando cuidadosamente cada palavra e frase no meu cérebro antes que possa ser repetida por ‘precipitação’.”[4] Blavatsky comentou sobre esse processo que: “O trabalho de escrever as cartas em questão é efetuado por um tipo de telegrafia psíquica; os Mahatmas raramente escrevem suas cartas da forma usual. Uma conexão eletro-magnética, por assim dizer, existe no plano psíquico entre um Mahatma e seus chelas, um dos quais age como seu secretário.”[5] O curioso é que, não importa qual chela venha a escrever manualmente a carta, a letra será sempre exatamente a do Mestre. Um fato que ainda não foi explicado pela ciência moderna é como a tinta foi colocada, não na superfície do papel, mas no seu interior. Permanece inexplicável, também, como estrias, feitas com a mesma tinta com que a carta foi escrita, foram incorporadas a espaços regulares no papel. Esses e muitos outros detalhes técnicos foram estudados em profundidade por um dos maiores especialistas em grafologia e falsificações, Vernon Harrison,[6] ex-gerente de pesquisas da Thomas De La Rue (equivalente à Casa da Moeda Britânica). Essas cartas encontram-se no Museu Britânico.

A Summit Lighthouse, uma das principais fontes de canalização de mensagens atribuídas aos Mestres Ascensos, confirma a existência e autenticidade dessas cartas: “a fundação da Sociedade Teosófica deve-se aos Mestres Morya e Koot Hoomi, que a utilizaram para difundir seus ensinamentos para o Ocidente, em parte por meio de cartas pessoais dirigidas a um punhado de alunos teosóficos.”[7]

É interessante notar que Sinnett nunca chegou a ver fisicamente nenhum dos dois Mestres com quem manteve extensa correspondência. Apesar do interesse de Sinnett em tornar-se um discípulo aceito do Mestre Koot Hoomi, geralmente referido como K.H., seu principal correspondente, foi-lhe dito que ele não tinha os requisitos para ser um discípulo, ou chela, como são conhecidos na Índia. Seus hábitos de vida e, principalmente, seus condicionamentos mentais, militavam contra a simplicidade e disciplina necessárias à vida de um chela. Sem essa disciplina e reorientação de vida, seria impossível para ele passar nos duros testes a que todos os discípulos são submetidos.[8] Noutra ocasião, explicando a natureza do treinamento dos discípulos e como eles deviam arcar com as conseqüências de seu carma, disse: “Não guiamos nunca nossos chelas (mesmo os mais avançados) nem os advertimos previamente, deixando que os efeitos produzidos pelas causas que eles próprios criaram, lhes ensinem pela melhor experiência.”[9] Ao solicitar uma comunicação direta com o Mestre sem comprometer-se a nenhuma mudança em sua vida, recebeu como resposta: “Aquele que quiser erguer alto a bandeira do misticismo e proclamar que o seu reino está próximo tem que dar o exemplo aos outros. Ele deve ser o primeiro a mudar os seus próprios modos de vida.”[10] Quando a correspondência terminou em 1886, depois de seis anos, Sinnett sentiu-se deprimido e, ao que tudo indica, acabou sendo vítima de seu excessivo anseio pela palavra dos Mestres.

Sinnett confessou em sua Autobiografia que, poucos anos após o término da correspondência, conheceu em Londres uma senhora com dons psíquicos que o teria colocado em contato com os Mestres outra vez. Ele jamais divulgou o nome da senhora, referindo-se a ela simplesmente como Mary. Esse “contato” foi mantido em segredo de seus amigos e colaboradores, ‘em conformidade com o desejo do Mestre.’ ‘Foi informado que se H.P.B. viesse a saber sobre Mary, poderia usar seus extensos poderes ocultistas para interferir no contato com o Mestre.’[11] No entanto, com o passar do tempo, foi a própria Mary que mostrou interesse em conhecer Blavatsky, aparentemente recebendo permissão para isto. Quando a reunião finalmente ocorreu, Sinnett escreveu em sua Autobiografia que, ‘H.P.B. não prestou atenção a Mary e não demonstrou nenhuma suspeita sobre suas características.’[12] Ora, Blavatsky era uma discípula avançada, possuía poderosos dons psíquicos, mantinha-se constantemente em contato com seus Instrutores e demonstrou repetidamente ao longo de sua vida total lealdade e obediência aos Mestres. Como esses sempre demonstraram ter total confiança nela, é altamente improvável que Mary fosse realmente um “canal” para o verdadeiro Mestre K.H., como Sinnett acreditava.

Vale mencionar, que esse período final da vida de Sinnett, supostamente em contato com o Mestre através do “canal” Mary, foi o período mais árido e penoso de sua vida. Passou por sérias dificuldades financeiras, sofrendo a humilhação de ter que se valer da ajuda material de vários de seus antigos amigos para sua sobrevivência. Perdeu seu filho com tuberculose e sua mulher com câncer. Em virtude de divergências com a direção da Sociedade Teosófica em Londres, afastou-se da Sociedade, fundando outra entidade, a “Elusinian Society”, que desfez poucos anos depois para retornar à Sociedade Teosófica, onde serviu como Vice-Presidente da Loja de Londres. Apesar do suposto contato com o Mestre, através do “canal” Mary, não publicou mais nada de caráter técnico ocultista, exceto um livro de teor histórico, Os Primeiros Tempos da Teosofia na Europa

OUTRAS FONTES DE INFORMAÇÕES SOBRE OS MESTRES
A partir de então, a literatura esotérica em geral e a teosófica em particular, passou a referir-se extensamente aos Mestres. Informações esparsas divulgadas por alguns de seus discípulos eram repetidas nos círculos esotéricos, nem sempre com a exatidão devida, contribuindo para a criação de certas lendas e imagens distorcidas sobre esses Grandes Seres. Essa situação foi amenizada a partir de 1925, com a publicação do livro, Os Mestres e a Senda, de autoria de C. W. Leadbeater, que era discípulo do Mestre K.H. Leadbeater conhecia pessoalmente seu Mestre bem como alguns outros membros da Grande Fraternidade Branca, como a Comunidade desses Grandes Seres é geralmente conhecida no Oriente, referida na tradição cristã como a Comunhão dos Santos. A obra ajudou a colocar muitos fatos em perspectiva. Leadbeater, era um vidente avançado, conseguindo comunicar-se com vários Mestres, tanto no plano físico como em outros planos. Por ser um discípulo Iniciado, teve acesso direto a um grande número de informações até então desconhecidas no Ocidente. Dentre as revelações de seu livro vale a pena mencionar a estrutura da hierarquia dos Mahatmas, seu modo de operação no mundo e seu processo de treinamento de discípulos.

Como tudo na vida tem seu lado sombra, ou o reverso da medalha, o livro Os Mestres e a Senda também contribuiu para alimentar as fantasias e ilusões de pessoas encarnadas e desencarnadas. A partir das informações contidas nesse livro, várias entidades do astral começaram a enviar mensagens atribuídas aos Mestres. Essas comunicações geralmente oferecem mensagens calcadas em palavras de solidariedade humana e amor ao próximo. Muitas chamam a atenção para uma eminente crise que deverá se abater sobre nosso planeta se os homens não se regenerarem e atenderem aos apelos dos Mestres para uma mudança de vida. Para aqueles que conhecem a literatura espírita, essas comunicações atribuídas aos Mestres guardam um estreito paralelo com as comunicações de entidades desencarnadas, os “espíritos,” conhecidos dos médiuns desde tempos imemoriais, mas que a partir do século XIX aparentemente passaram a se comunicar com muito maior freqüência, sendo muitas dessas comunicações registradas e levadas ao conhecimento do grande público.

Em virtude do teor aparentemente benéfico dessas comunicações, muitas pessoas poderiam questionar por que nos preocuparmos com a autoria dessas mensagens. Se elas estão estimulando as pessoas para uma vida mais ética e amorosa, o que importa se essa atribuição aos Mestres é correta ou não? Porém, devemos nos lembrar que o objetivo da vida espiritual é o conhecimento da verdade, objetivo esse indicado por Jesus quando nos disse: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8:32). Mas não é só isso. Apesar do teor adocicado das mensagens em pauta, elas trazem em seu bojo três grandes perigos de distorção: sobre a maneira como os Mestres atuam no mundo, a natureza do progresso espiritual dos discípulos e alguns aspectos da vida oculta.


RELACIONAMENTO E COMUNICAÇÃO ENTRE MESTRE E DISCÍPULO
Em primeiro lugar, a atribuição dessas mensagens aos Mestres cria uma idéia errônea sobre o método de operação dos Mahatmas no mundo. Provavelmente ainda são válidas as palavras do Mestre K.H. enviadas a Sinnett e aos teosofistas europeus no século XIX: “Nenhum de vocês jamais conseguiu formar uma idéia acurada dos ‘Mestres’ ou das leis do Ocultismo pelas quais eles são guiados.”[13] Os Mestres sempre indicaram que sua latitude para ação no mundo material é consideravelmente limitada e que agem, via de regra, por meio de seus discípulos no mundo e não por meio de comunicações bombásticas ou de fenômenos para-normais, geralmente chamados de milagres.

Isso ficou claro no caso clássico de Sinnett que, ao longo de sua extensa correspondência, instou os Mestres a demonstrarem cabalmente ao mundo sua existência por meio de algum fenômeno incontestável, como a materialização de um exemplar do jornal The Pioneer em Londres, no mesmo dia de sua publicação na Índia, e do Times em Simla, na Índia, no mesmo dia de sua publicação em Londres. Em virtude dos meios de transporte da época, a realização desse feito seria um verdadeiro “milagre.” O Mestre K.H. pacientemente explicou a Sinnett: “Justamente porque o teste com o jornal de Londres fecharia a boca dos céticos – ele é impensável... A verdade é que nós trabalhamos usando leis e meios naturais e não sobrenaturais... Você diz que metade de Londres seria convertida se você pudesse entregar ao público de lá o jornal Pioneer no mesmo dia da sua publicação. Permita-me dizer que, se as pessoas acreditassem que a coisa era verdadeira, elas o matariam antes que pudesse dar uma volta no Hyde Park, e se elas não acreditassem, o mínimo que poderia acontecer seria a perda da sua reputação e de seu bom nome, por propagar tais idéias.”[14] O Mestre continuou a carta por várias páginas, apresentando seus argumentos com extrema sabedoria e lucidez, provando a Sinnett que a experiência milenar da Fraternidade comprova que a humanidade sempre resiste aos fenômenos que não consegue explicar, endeusando ou matando aqueles que os apresentam.

 Os Mestres, portanto, agem no mundo através de seus discípulos. Projetos, mensagens ou ações que desejam realizar para a humanidade são efetuados por seus colaboradores no mundo material, sendo atribuídos a esses colaboradores. Esse é um ponto básico, como podemos verificar com obras ‘inspiradas’ como Luz no Caminho, A Doutrina Secreta e tantas outras, que são sempre publicadas em nome do discípulo. O Mestre solicita ou inspira seu discípulo a agir da forma desejada. Mas, deve ficar claro aqui, que o Mestre quando muito solicita, sem jamais atropelar ou forçar o livre arbítrio do ser humano. Os irmãos das trevas agem de forma diferente, manipulando, hipnotizando ou forçando as pessoas, de uma forma ou outra, sem respeitar sua vontade própria.[15] Para os agentes das trevas os fins justificam os meios, para os Seres de Luz isso seria inadmissível.

Isso nos remete à questão da preparação dos discípulos. Um discípulo é um Mestre em preparação. Está sendo habilmente conduzido a trilhar o caminho da perfeição, como indicou Jesus: “Sede vós perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5:48). Por isso, um dos objetivos do treinamento é tornar o discípulo cada vez mais auto-suficiente, capaz de trilhar o Caminho com suas próprias pernas e sem ajuda externa. Tanto é assim, que geralmente os Mestres só aceitam como discípulos aqueles aspirantes que já fizeram contato com seu mestre interior, ou seja, sua alma. É por essa razão que a credibilidade e total confiança nas comunicações atribuídas aos Mestres oferece um grande risco, ou seja, de tornar o aspirante dependente das comunicações externas, de guias, rituais e práticas exteriores. Retornaremos a este ponto mais adiante.

Não queremos dizer com isto que nenhuma comunicação é feita a aspirantes e discípulos no mundo. Certamente que não. A comunicação por cartas, como efetuado com Sinnett, Hume e uns poucos outros, no século XIX, realmente é muito rara. Mas os Mestres comunicam-se com freqüência com seus discípulos por telepatia. Os discípulos mais avançados são treinados nesta forma de comunicação, podendo utilizá-la com seus instrutores e outros discípulos avançados. Mas os colaboradores ainda não admitidos como chelas e os discípulos mais jovens, ainda incapazes de uma comunicação direta com seus instrutores, também têm a oportunidade de contatos com os Mestres. Existem, em diversos países, vários grupos fechados em comunicação com os Grandes Instrutores, geralmente voltados para o treinamento de seus membros e a preparação de certas ações no mundo. Os membros desses grupos são escolhidos por sua comprovada dedicação à causa do bem da humanidade. Para serem aceitos, fazem um voto de segredo sobre suas atividades. Essa é a razão destes grupos raramente serem conhecidos do público.

Mas os outros aspirantes? Este é um ponto delicado que inicialmente causa frustração aos que procuram seguir o caminho do ocultismo. Para que possamos entender melhor essa questão devemos levar em consideração o papel dos Mestres em relação à humanidade. Sabemos que os Mahatmas são seres que por suas realizações mereceram entrar no Nirvana, ou seja, naquele estado de bem-aventurança divina absolutamente incompreensível a nós seres humanos. No entanto, movidos por uma profunda compaixão, optaram por permanecer na esfera terrena,[16] até que o último ser humano fosse liberto do sofrimento, ajudando neste processo, sempre e em todos os casos de acordo com as leis universais do carma e do livre arbítrio.

Dentro desses parâmetros, e levando em conta a experiência dos membros da Fraternidade, acumulada ao longo de incontáveis milênios de atuação no mundo, os Mestres sabem exatamente o que pode ser feito e o que deve ser feito para ajudar cada indivíduo no seu estágio atual de evolução. Jamais agem baseados em personalismos e preferências, mas sempre de acordo com os méritos das pessoas, de suas condições cármicas e das oportunidades para estender o maior benefício ao maior número possível de pessoas, por meio das ações a serem realizadas por seus colaboradores no mundo.

Quando estudamos o maravilhoso trabalho dos Mestres, podemos imaginar que o mundo seria totalmente diferente se uma grande parte da humanidade conhecesse esses Grandes Seres. Isso nos levaria a pensar que um movimento de conscientização popular do trabalho dos Mestres poderia ser um grande facilitador para a evolução. Somos informados, porém, que justamente o contrário é verdadeiro. A última carta escrita pelo Mestre K.H, em 1900, a Annie Besant, então Presidente da Sociedade Teosófica, urgia ação muito específica a esse respeito: “Muito poucos são aqueles que podem saber qualquer coisa a nosso respeito... O falatório acerca dos ‘Mestres’ deve ser silenciosa mas firmemente eliminado. Que a devoção e o serviço sejam somente para aquele Supremo Espírito, do qual cada um é uma parte. Nós trabalhamos anônima e silenciosamente, e a contínua referência a nós mesmos e a repetição de nossos nomes gera uma aura confusa que atrapalha nosso trabalho.”[17]

A INSPIRAÇÃO DE COLABORADORES DOS MESTRES
Quando as condições dos aspirantes não permitem um contato direto, os Mestres “inspiram” e ajudam de forma indireta aqueles que se oferecem para servir. Por exemplo, aqueles que estão atuando na comunicação das verdades espirituais, são seguidamente ajudados com idéias, conceitos, argumentos e fatos que simplesmente aparecem em sua mente. Como o plano mental está repleto de formas pensamentos[18] um Mahatma pode facilmente direcionar uma forma pensamento poderosa com as idéias ou conceitos que poderão ajudar naquele momento seu colaborador no plano terreno. O aspirante terá sempre a possibilidade de usar seu discernimento para decidir se adota a idéia ou não. Todos os escritores e oradores sabem, por experiência própria, que quando engajados num projeto altruísta ou que pode trazer benefícios à sociedade, seguidamente as idéias aparecem como se caíssem do céu. Além disso, o que Jung chamou de sincronicidade[19] começa a ocorrer. O indivíduo entra numa livraria e encontra um livro versando exatamente sobre o tema que estava pesquisando. Às vezes a “coincidência” é tal que, ao folhear o livro, abre exatamente na página tratando do assunto de seu interesse imediato.

Deve ficar claro, porém, que nem todas as “inspirações” têm sua origem nos Mestres. Provavelmente a principal fonte de inspiração é o próprio mestre interior, ou seja, o Eu Superior. Na verdade, nossa natureza superior é a expressão de Deus em nós, conhecida nos meios ocultos como EU SOU, e referida pelos teólogos como a natureza imanente de Deus. Portanto, o Eu Superior é sempre imensamente mais sábio do que nossa personalidade e, ademais, tem acesso à Mente Divina, chamada muito apropriadamente por Jung de inconsciente coletivo. Por isso, quando estamos devidamente concentrados, podemos entrar em contato com nosso Eu Superior, ainda que não tenhamos consciência disso.

Outra fonte possível de inspiração são os anjos. Os videntes que desenvolveram a visão espiritual e são capazes de perceber a atividade dos seres normalmente invisíveis aos nossos órgãos de percepção externos, sabem que os anjos estão sempre buscando oportunidades para cooperar com o bem estar e o progresso da humanidade. Em contraste com os seres humanos, em nosso atual estágio evolutivo, que estão sempre procurando tirar proveito próprio de todas as situações, é da natureza dos seres angélicos servir e agir de forma altruísta. Sendo inteiramente desprovidos de ego, não podem agir de forma egoísta, sendo o seu progresso evolutivo função da extensão de seu sacrifício inteligente em prol da evolução em seu plano.[20] Portanto, os anjos do plano mental seguidamente direcionam idéias e pensamentos apropriados para as pessoas que estão engajadas na busca da verdade e, principalmente, para aqueles que estão trabalhando em obras que podem contribuir para a evolução da humanidade.

MÉTODOS DE COMUNICAÇÃO DOS MESTRES
Convém esclarecer os métodos conhecidos pelos quais os Mestres capacitam seus discípulos a transmitir informações e ensinamentos ao mundo. A tradição esotérica indica que os Mestres geralmente usam dois métodos para transmitir informações que gostariam de divulgar à humanidade. No caso de uma obra que no atual estágio evolutivo da humanidade pode agora ser divulgada, mas que deve ser transmitida absolutamente sem erros, geralmente imprimem telepaticamente o texto na mente do discípulo para que esse, por sua vez, possa escrevê-lo de forma correta. A obra Luz no Caminho, teria sido escrita por esse meio por Mabel Collins no século XIX. De acordo com Leadbeater, em casos excepcionais, os Mestres podem até ditar a mensagem a ser transmitida: “Há casos, em que uma incumbência de grande importância é ditada palavra por palavra, e anotada no plano físico, na hora, pelo recipiendário, mas tais casos são sumamente raros.”[21]

O outro método, geralmente usado com discípulos mais avançados, é a transmissão telepática de informações, conceitos e idéias, deixando por conta do discípulo a formulação do texto final de acordo com seus dons intelectuais e literários. Essas transmissões geralmente ocorrem no plano mental abstrato ou no búdico (intuitivo). Lembramos que nos planos superiores, as comunicações não são realizadas por palavras, como em nosso mundo. Os conceitos são expressos de uma forma simbólica sintética, e devem ser “decodificados” ou “traduzidos” em palavras, pela mente concreta, para serem inteligíveis em nosso plano.

Um exemplo clássico das comunicações por meio de discípulos avançados é o conhecido trabalho de Blavatsky A Doutrina Secreta. Ela era capaz de recolher informações dos registros akáshicos, ler à distância textos que se encontravam em outros lugares (como na biblioteca secreta do Vaticano) e receber comunicações de diferentes Mestres colaborando na obra. Porém, a tarefa nem sempre era meramente a de receber um ditado, mas sim a de compor, com suas próprias palavras o texto a ser produzido. A Condessa de Wachtmeister, sua companheira constante durante o período em que escreveu A Doutrina Secreta, relata que, um dia: “... ao entrar no gabinete de Blavatsky, encontrei o chão coberto de folhas manuscritas. Perguntei a razão desse aspecto de confusão e ela respondeu: - Sim, tentei doze vezes escrever esta página corretamente e toda vez o Mestre diz que está errado. Acho que vou ficar louca, escrevendo-a tantas vezes; mas deixe-me sozinha; não descansarei enquanto não o conseguir, ainda que tenha de ficar aqui a noite toda. Uma hora mais tarde ouvi sua voz me chamando e, ao entrar, verifiquei que havia, finalmente, concluído o trecho e de maneira satisfatória.”22]

COMUNICAÇÕES CANALIZADAS ATRIBUÍDAS AOS MESTRES
A principal consideração que nos levou a alertar os estudantes de ocultismo para o perigo dessas comunicações, apesar de seu caráter aparentemente beneficente, é o fato delas conterem muitas distorções e, até mesmo, erros factuais e conceituais. Isso sugere que a grande maioria, se não a quase totalidade dessas mensagens provavelmente não é de autoria dos Mestres. Numa de suas cartas, K.H. disse a Sinnett que não era possível a comunicação com ele por meio de médiuns. “Você quer saber por que é considerado extremamente difícil, se não completamente impossível para os Espíritos puros desencarnados se comunicarem com os homens através de médiuns ou Fantasmasofia. Eu digo que é: (a) devido às atmosferas antagônicas que envolvem respectivamente esses mundos; (b) por causa da diferença extrema que há entre as condições fisiológicas e espirituais; e (c) porque essa cadeia de mundos sobre a qual falei a você não é somente um epiciclóide, mas uma órbita elíptica de existências, tendo como toda elipse não um, mas dois pontos, dois focos, que nunca podem se aproximar um do outro. O homem está em um dos focos, e o Espírito puro no outro.”[23]

Em outras palavras, as entidades do astral não são confiáveis como instrutores. Com exceção dos seres conhecidos como Nirmanakayas[24] que atuam no plano astral para o benefício daqueles que estão de passagem por aquele plano ou podem receber comunicações astrais, a grande maioria dos habitantes do astral que enviam mensagens para pessoas encarnadas por intermédio de médiuns, já perderam seus princípios superiores e estão em processo de decomposição. No entanto, devido às características especiais daquele plano, essas entidades, melhor conhecidas como cascões, ou cadáveres astrais, retêm parte de sua memória passada e podem, além disso, entrar em sintonia com as emoções e pensamentos das pessoas envolvidas na sessão mediúnica. Por essa razão podem enviar mensagens baseadas no que restou de sua memória do passado bem como no conhecimento atual dos encarnados que participam da sessão. Por isso, as mensagens tendem a refletir a expectativa dos recipiendários, sendo geralmente aceitas, apesar de não acrescentarem nada de novo em termos de ensinamentos.

O Mestre K.H., respondendo a uma pergunta de Sinnett, que sempre mostrou grande interesse pelos processos mediúnicos, alertou: “Naquele mundo (o astral), meu bom amigo, nós só encontramos máquinas ex-humanas, inconscientes e autômatas; almas em estado de transição, cujas faculdades e individualidades adormecidas estão como uma borboleta em sua crisálida; e os Espíritas esperam que elas falem com sensatez! Colhidas em certas ocasiões pelo vórtice da corrente anormal “mediúnica,” elas se tornam ecos inconscientes de pensamentos e idéias cristalizadas em volta dos que estão presentes.”[25]

Em inúmeras ocasiões os Mestres alertaram seus correspondentes sobre os perigos das comunicações mediúnicas em geral, e da virtual impossibilidade deste meio ser utilizado pelos Adeptos para suas comunicações com seus colaboradores. Porém, deixaram claro que muitas comunicações espúrias do astral seriam atribuídas a eles. “Pode ocorrer que em função de objetivos próprios nossos, médiuns e seus fantasmas sejam deixados à vontade e livres não só para personificar os “Irmãos”, mas até mesmo para forjar nossa letra manuscrita.[26] Esse ponto deve ser levado em consideração nas mensagens atribuídas aos Mestres. Todos os grandes reformadores espirituais alertam para esse fato. Jesus, por exemplo, disse: “Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos ferozes” (Mt 7:15).

Apesar de todos os alertas dos Mestres sobre comunicações mediúnicas, o escritor inglês W. Oxley enviou um artigo para publicação no Theosophist, alegando ter recebido instruções do Mestre K.H., em forma astral, em três ocasiões. A situação tornou-se tão confusa que o Mestre Djwal Khul (D.K.), no impedimento de seu Mestre K.H., resolveu esclarecer a questão escrevendo a Sinnett que não era verdade que a entidade comunicando-se com Oxley era o Mestre K.H. E, para evitar a repetição desses tipos de impostura, informa que um procedimento de segurança passará a ser adotado: “De agora em diante qualquer médium ou vidente que se sentir inclinado a alegar que foi visitado por, ou teve uma conversa com, ou viu meu Mestre, terá que comprovar a alegação antecedendo sua afirmativa com TRÊS PALAVRAS SECRETAS, que ele, meu Instrutor, comunicará e deixará sob a guarda do sr. Hume e do sr. Sinnett... Meu Mestre lamenta ser forçado a tomar esta medida, já que infelizmente, no período recente, tais auto-ilusões têm-se tornado bastante freqüentes, e requerem uma pronta providência.”[27]

Clara Codd, uma profunda estudiosa do ocultismo, escrevendo em meados do século XX sobre comunicações mediúnicas, diz: “Este é um assunto importante a ser pensado nestes dias quando tantos médiuns e clarividentes estão transmitindo mensagens e diretrizes em nome de muitos membros da comunidade dos Adeptos. É realmente extraordinário o rápido crescimento de tais ilusões. No curso de minhas viagens tenho pessoalmente encontrado muitos dos assim chamados adeptos, iniciados, muitos dos quais declarando-se adeptos de alto grau.”[28]

Os sensitivos também estão sujeitos a enganos em suas visões. “Há muitos clarividentes sinceros mas não treinados, que transmitem mensagens e ensinamentos supostamente vindos dos Mestres de Sabedoria. Uma sensitiva nata que eu conheci bem na África do Sul – e que, ao mesmo tempo, é dotada de considerável força de caráter e bom-senso, disse-me várias vezes ter, em sua própria experiência, descoberto que quase todas as aparições astrais são ‘mentirosas’. O plano astral é o que H.P.B. chama ‘o mundo da grande ilusão’.”[29] Para que o sensitivo possa ‘ver’ sem distorções no plano astral deve submeter-se a um treinamento rigoroso. Comentando a respeito das visões enganosas que podem ser observadas no astral, o Mestre K.H. escreve: “Há aqueles que são voluntariamente cegos e outros o são involuntariamente. Os médiuns pertencem aos primeiros, os sensitivos aos últimos. A menos que tenham sido adequadamente iniciados e treinados, no que se refere à visão espiritual das coisas e às supostas revelações feitas à humanidade em todas as épocas, desde Sócrates até Swedenborg e ‘Fern’ – nenhum vidente ou clariaudiente treinado por si mesmo viu ou ouviu alguma vez com completa exatidão.”[30]

Examinemos, agora, algumas das distorções e erros apresentados em certas comunicações atribuídas aos Mestres. Uma das mais citadas e que provocou considerável impacto nos meios esotéricos foram as obras de Alice A. Bailey. Ao longo de quase trinta anos (1922 a 1949), Alice Bailey produziu 24 obras, sendo 18 delas atribuídas a uma entidade, por muito tempo referida simplesmente como “O Tibetano.” Nos últimos anos de suas atividades literárias Bailey deixou escapar, ou deu a conhecer, os fatos não são muito claros, que “O Tibetano” era o Mestre Djwal Khul, que havia ajudado o Mestre K.H. no trabalho da Sociedade Teosófica no século XIX. Alice Bailey tinha uma mente brilhante e, com sua dedicação ao estudo, destacou-se rapidamente nos meios teosóficos, chegando a atuar como coordenadora da sessão esotérica da Sociedade Teosófica nos Estados Unidos. Acabou deixando a S.T. para fundar sua Escola Arcana, que ministrava por correspondência ensinamentos esotéricos, baseados nas instruções atribuídas ao Tibetano.

Suas obras, escritas num estilo literário um tanto convoluto, que tornava os assuntos tratados muito mais complicados e aparentemente mais profundos, exerceram grande influência nos meios esotéricos, sendo muito citadas. Com a repetição das citações as informações apresentadas em suas obras foram adquirindo uma aura de respeitabilidade inquestionável. Os estudantes de esoterismo que são submetidos a esse bombardeio de informações de fontes aparentemente fidedignas, depois de certo tempo, têm dificuldade para separar o joio do trigo.

O autor deste ensaio pode falar sobre esta questão com conhecimento de causa, pois foi estudante da Escola Arcana por cerca de cinco anos, recebendo o material de instrução diretamente da sede da Escola em Nova Iorque. Se por um lado o material era atraente em vista da profusão de informações de cunho esotérico, continha vários pontos que pareciam questionáveis.

Só consegui me livrar do terrível emaranhado de dúvidas e questionamentos em que estava enredado, ao perceber intuitivamente que Alice Bailey seguiu os passos de muitos outros aspirantes e até mesmo discípulos que, devido a sua dedicação e desejo de servir, são inicialmente inspirados pelo alto. No entanto, quando seu ego, ou seus preconceitos, interfere com seu trabalho espiritual no mundo, a inspiração é retirada e essas pessoas continuam sua jornada acreditando que são portadoras da luz, mesmo quando, na realidade, tenham se tornado disseminadores de ilusões e meias-verdades. No caso de Bailey, ao que parece, essa inspiração inicial lhe teria sido retirada pelo fato de usar seus livros, palestras e atividades da Escola Arcana para propagar suas idéias e preconceitos religiosos adquiridos na infância e durante os anos em que trabalhou como evangelizadora da Igreja Anglicana na Inglaterra, Irlanda e Índia[31].

Bailey acreditava literalmente no retorno de Cristo para o estabelecimento de Seu Reino na Terra por mil anos. Esse parece ter sido o principal ponto para a ruptura de seu contato interior, a insistência, em seus livros e palestras, de que toda a Hierarquia estava engajada no trabalho de preparação para o “iminente retorno do Cristo.” Apesar de mais de oitenta anos terem se passado desde que começou a pregar sobre o “iminente” retorno, a chegada de Cristo em nosso sofrido planeta ainda é uma promessa a ser cumprida, pelo menos no sentido em que sempre foi entendida pelos fundamentalistas, ou seja, em forma corpórea e com toda Sua glória externa. Com a retirada da inspiração do “Tibetano”, depois de seus primeiros livros, não se sabe que entidade apareceu para ocupar o vazio criado na comunicação psíquica de Alice Bailey, mas seus livros subseqüentes indicam uma mudança de estilo e passaram a apresentar cada vez mais detalhes curiosos sobre a vida esotérica e o trabalho da Hierarquia.


OS MESTRES “ASCENSOS”
A partir da década de trinta, do século XX, começou a aparecer um tipo especial de comunicação canalizada, dessa vez referindo-se aos Mestres “Ascensos”. Ao que tudo indica, essas comunicações começaram com as mensagens transmitidas por intermédio de Guy Ballard. As comunicações de Ballard começam com os detalhes do que teria sido seu primeiro encontro com o Mestre Saint Germain, no Monte Shasta, na California. Informou que de lá foi levado em seu corpo sutil, pelo Mestre, ao retiro de Monte Teton, escondido dentro daquela montanha em Wyoming, EUA. A partir de então suas experiências foram relatadas em diversos livros, como: Mistérios Desvelados, A Presença Mágica, Os Discursos EU SOU, Instruções de um Mestre Ascenso e O Amado Saint Germain Fala. Por ocasião de sua morte, no Retiro de Royal Teton, teria finalmente ascendido, passando a ser conhecido como o amado Mestre Ascenso Godfre.

O trabalho de Ballard parece ter aberto a caixa de Pandora de onde saíram uma infinidade de outras comunicações atribuídas aos Mestres Ascensos. Uma busca na internet revelará a variedade de materiais existentes sobre esse assunto. Essas comunicações foram “canalizadas” não só por sensitivos americanos, mas também de outros países, inclusive do Brasil. Seria impossível, dentro do escopo deste ensaio, tentar apresentar algo do trabalho de todos esses sensitivos ou mesmo dos mais representativos. Procuraremos, no entanto, apresentar as linhas gerais dos ensinamentos transmitidos por esses diferentes canais, pois guardam considerável semelhança.

Vale mencionar que, após as comunicações de Ballard, talvez os movimentos com maior repercussão tenham sido a Ponte para a Liberdade e, mais recentemente, a Summit Lighthouse (Farol do Cume), ambos fundados nos Estados Unidos, passando a atuar em vários países, inclusive no Brasil. Parte das informações sobre esses grupos apresentadas a seguir, em forma resumida, foi retirada de folhetos, páginas da Internet e livros da Summit Lighthouse do Brasil.

Em primeiro lugar, o que é um Mestre Ascenso? Um Mestre Ascenso seria um iniciado que alcançou a Sexta Iniciação que, para esses grupos, é tida como a Iniciação equivalente na tradição cristã à Ascensão de Cristo aos Céus para ficar à direita do Pai, daí a referência a “Mestre Ascenso.” De acordo com essa linha, a Primeira Iniciação seria simbolizada pelo Nascimento do Cristo, a Segunda pelo Seu Batismo, a Terceira pela Transfiguração, a Quarta pela Crucificação, a Quinta pela Ressurreição e a Sexta pela Ascensão. Parece ter havido uma certa confusão nesta codificação das iniciações. Até a Terceira, as Iniciações como simbolizadas pela vida de Cristo conferem com a visão de outros autores.[32] As diferenças aparecem a partir da Quarta Iniciação, já que os eventos da Crucificação e da Ressurreição que, para a linha dos Mestres Ascensos, constituiriam iniciações separadas, sempre foram considerados pelos estudiosos do Cristianismo Esotérico como dois aspectos da mesma iniciação. “Na simbologia cristã a Quarta Iniciação está representada pelas angústias sofridas no horto de Gethsêmane, a crucificação e ressurreição de Cristo.”[33] A crucificação e a ressurreição representariam, assim, os dois lados da mesma moeda, ou seja, a morte do homem velho e o nascimento do homem novo de que fala Paulo. A tradição dos Mistérios egípcios descrevia essa Iniciação ocorrendo numa cripta. Nela, o candidato era atado sobre uma cruz de madeira, induzido a um transe profundo, equivalente à morte, descendo então aos mundos inferiores em seus corpos sutis e em seguida aos mundos superiores onde era instruído e Iniciado, para finalmente ser desperto, ou “ressuscitado” pelo Hierofante no terceiro dia.

A Quinta Iniciação, de acordo com a tradição esotérica, constituiria a última iniciação do ciclo humano. A partir de então, os Adeptos passam a trilhar uma nova Senda, incompreensível para a nossa experiência humana. Nas palavras de Leadbeater, “O Adepto realizou o propósito através daquilo que o fez homem, e assim dá agora o passo final que o torna Super-homem – Ashekha, como o chamam os budistas, pois ele nada mais tem a aprender e exauriu as possibilidades do reino humano da natureza... No simbolismo cristão, a Quinta Iniciação é representada pela Ascensão de Cristo e a vinda do Espírito Santo em línguas de fogo, que corresponde à entrada no Adeptado, porque o Adepto ascende a uma esfera superior à humanidade e muito além da terra.”[34]

As comunicações dos Mestres Ascensos apresentam incontáveis detalhes sobre a vida dos Mestres, suas encarnações anteriores, os retiros onde vivem, os projetos em que estão engajados, e os dons e poderes divinos que operam em prol da realização do grande plano divino. O estudante de esoterismo não cessa de se maravilhar com as informações de caráter aparentemente oculto oferecidas. As mudanças que teriam ocorrido na estrutura da Hierarquia são relatadas em todos seus detalhes. Somos informados que Sanat Kumara, o Senhor do Mundo, foi convencido a deixar seu posto supremo na Hierarquia, em favor do Senhor Buda. Com isso várias mudanças ocorreram na estrutura hierárquica.

“Em 1º de janeiro de 1956, numa cerimônia realizada no Retiro de Royal Teton (de forma surpreendente nos Estados Unidos e não em seu tradicional reduto nas regiões trans-Himalaias), Gautama sucedeu a Sanat Kumara no cargo de Senhor do Mundo e Maitreya sucedeu a Gautama nos cargos de Cristo Cósmico e Buda Planetário, passando o manto de Instrutor do Mundo aos candidatos a esse cargo, Jesus Cristo e Kuthumi.” Parece estranho que agora existam dois Instrutores do Mundo, sendo um, o Mestre Jesus, do Sexto Raio, apesar desse cargo ser sempre ocupado por um Mestre do Segundo Raio, pois esse reflete a energia divina utilizada nessa função. Com isso outros espaços teriam sido abertos nos cargos de Chohans dos Raios. O Mestre Ascenso Lanto teria assumido o cargo de Chohan do Segundo Raio. Somos informados que Lanto “alcançou sua mestria quando estudava sob a orientação do Senhor Himalaia, Manu da Quarta Raça Raiz, cujo Retiro do Lótus Azul está escondido nas montanhas que levam o seu nome.” Outra promoção relatada é a da Mestre Ascensa Nada, que assumiu o Sexto Raio, com a transferência de Jesus, conjuntamente com Koot Hoomi, para o cargo de Instrutor do Mundo.

Ao que parece, a Hierarquia teria passado, no século XX, a refletir nos planos espirituais os anseios de melhor representatividade de sexos e raças da era atual. Além da Mestra Ascensa Nada, somos informados que a Mestra Ascensa Kwan Yin, que teria precedido o Mestre Ascenso Saint Germain como Chohan do Sétimo Raio, tornou-se um dos sete Mestres Ascensos que atuam no Conselho do Carma, trazendo assim um melhor equilíbrio para a polaridade negativa na dispensação da misericórdia e justiça divina. Até a minoria negra (nas Américas, onde teriam sido feitas essas revelações), obteve uma fatia do poder. “O Mestre Ascenso Afra tornou-se o primeiro Mestre Ascenso da África, passando a ser o patrono da África e da raça negra.” Por outro lado, o caráter predominante anglo-saxão da Hierarquia fica patente pelos cabelos louros dos Mestres nas fotografias que são apresentadas no livro: Senhores dos Sete Raios de Mark e Elizabeth Prophet, e nas páginas da WEB da Summit Lighthouse do Brasil. Aparecem com cabelos louros: Jesus, Paulo Veneziano, Saint Germain, Nada e Maria mãe de Jesus. Uma última curiosidade: provavelmente refletindo o axioma hermético de que o que está em baixo é como o que está em cima, encontramos na Hierarquia um misterioso ser descrito como K-17, que seria o Diretor do Serviço Secreto Cósmico – ao que tudo indica, as atribuições deste serviço secreto cósmico são tão secretas que não foram divulgadas.[35]

Com a entrada da Era de Aquário, os Mestres teriam informado que uma aceleração estaria ocorrendo no processo evolutivo da humanidade. Para ajudar nessa aceleração a Mestre Ascensa Nada teria concedido a Ciência da Palavra Falada e o Mestre Ascenso Saint Germain o poder para toda a humanidade transmutar seu carma negativo por meio da Chama Violeta. Os procedimentos para a utilização desse novo instrumental são explicados exaustivamente em inúmeras comunicações de diferentes Mestres. A ajuda parece ser tão poderosa que o discípulo que proceder de acordo com as instruções ministradas, poderia “ascender” numa só vida.

É dito que um discípulo inteiramente dedicado pode passar da Terceira Iniciação para a Ascensão (Sexta) em seis anos de vida rigorosamente de acordo com a nova revelação. A razão pela qual o Caminho tornou-se tão mais fácil, comparado com o das antigas tradições, é que atualmente, “Um Mestre Ascenso precisaria transmutar ao menos 51 por cento de seu carma e receber as iniciações do Raio Rubi no ritual da Ascensão.”

Os Mestres Ascensos conferem grande atenção à Ciência da Palavra Falada. Essa ciência ter-se-ia originado no momento da manifestação do Universo, pois, no princípio “Deus disse: ‘Haja luz’ e houve luz” (Gn 1:3). Para esse ato criador Deus não pensou nem meditou, mas sim disse, ‘haja luz’. O poder do Verbo é a energia mais poderosa de toda a manifestação. Os Mestres Ascensos ajudaram o homem moderno a “resgatar a Ciência da Palavra Falada, utilizada há 12 mil anos atrás nos templos sagrados da Lemúria e da Atlântida.”[36]

A Ciência da Palavra Falada é operacionalizada por meio de decretos. O homem, a quem Deus outorgou o poder de ser também um criador, deve ordenar por decreto às hierarquias criadoras, presididas pelos anjos e arcanjos, especificamente o que deseja realizar. O decreto é, portanto, “o poder do Verbo na solução de problemas e elevação da alma.” Foi revelado que: “o decreto é a mais poderosa das petições à Divindade. É uma ordem, proferida pelo filho ou filha de Deus em nome da Presença do EU SOU e do Cristo, para que a vontade do Todo-Poderoso seja manifestada, assim em baixo como no alto.