Perde o Coração

Nós vivemos a era do cérebro. Esse órgão, de importância inegável, está no centro dos estudos da neurociência. É ele que processa as informações relacionadas à mente e aos pensamentos, participa da formação da consciência e comanda inúmeras funções orgânicas do corpo. Sua importância é incontestável. No entanto, esquecemos que, sem o coração, ele simplesmente não funciona.

 

Sua localização privilegiada, no alto do corpo, parece simbolizar a capacidade de alcançar uma visão ampla, não apenas do mundo físico, mas, sobretudo, da própria consciência. O coração, por sua vez, está situado no centro do corpo e representa, simbolicamente, o próprio centro da consciência humana.

 

No mapa simbólico do nosso corpo, encontramos três áreas distintas e, ao mesmo tempo, integradas a uma consciência superior. Na parte superior, abrangendo o pescoço e a cabeça e correspondendo a três dos sete chacras – laríngeo, frontal e coronário –, está o centro do pensamento e da inteligência, reflexo de nossa natureza espiritual. No centro do corpo, mais precisamente no tórax, encontram-se o chacra cardíaco e o centro do sentimento, reflexo de nossa natureza humana. Na parte inferior, abaixo do plexo, encontram-se os três chacras inferiores – básico, sexual e plexo solar –, que correspondem ao centro do movimento e da ação, reflexo de nossa natureza primária, animal.

 

Cada chacra representa também um nível de consciência. Em outras palavras, a compreensão dessa estrutura invisível nos permite perceber como nossos pensamentos, sentimentos e ações derivam do movimento da consciência, que transita entre esses três centros e pelos sete níveis e, em circunstâncias específicas, se manifesta predominantemente em um deles. Quando nossos comportamentos são tomados pela emotividade, por exemplo, significa que a consciência se encontra atuando nos níveis inferiores. Isso não significa inteligência emocional, como muitas vezes esse conceito é desvirtuadamente compreendido. É nesse centro que também encontramos aquilo que chamamos de santuário da vida. Contudo, assim como a vida, a consciência cresce e se expande, simbolicamente, para cima. Esse simbolismo não é apenas abstrato: representa o despertar progressivo da consciência em direção a níveis mais elevados.

 

É no centro cardíaco, o centro do sentimento, que nos humanizamos, quando a emotividade amadurece em amor e compaixão. Nesse sentido, o coração é concebido como o centro da vida e da consciência, como era compreendido pelos sábios sacerdotes do Egito Antigo.

 

Nossa civilização, em certo sentido, perdeu seu coração – o coração simbólico – e, com ele, perdeu também a referência de um centro capaz de integrar pensamento, sentimento e ação. A consciência salta, então, do centro do pensamento, que nem sempre é acompanhado de inteligência, diretamente para o centro do movimento e da ação. Talvez esteja aí uma das razões pelas quais nossas atitudes, comportamentos e ações sejam, em tantas ocasiões, essencialmente reativos.

 

Recuperar o coração não significa abandonar o cérebro, negar a inteligência ou rejeitar a ação. Significa devolver ao ser humano o centro que integra essas dimensões. O pensamento precisa da inteligência, o sentimento precisa amadurecer em amor e a ação precisa ser orientada pela consciência. Quando esses três centros deixam de atuar de forma fragmentada e passam a convergir, o ser humano deixa de apenas pensar, sentir e agir desconectado de seu centro de humanidade, para começar, verdadeiramente, a compreender, amar e agir com consciência.

 

Talvez seja esse o coração que perdemos – não o órgão que pulsa no centro do peito, mas o centro simbólico que nos permite permanecer humanos. Porque, quando o pensamento se separa do sentimento e a ação se separa da consciência, podemos até nos tornar mais inteligentes, mais eficientes e mais rápidos, mas não necessariamente mais humanos. Recuperar o coração é, portanto, recuperar a própria humanidade.

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