Uma Estranha Saudade

Sinto uma saudade de algo que me parece já ter vivido em alguma época. É um sentimento que emerge das profundezas da consciência, como uma lembrança sem memória, um eco de um tempo em que aquilo que o ser humano buscava possuía um significado mais profundo.

 

Um tempo de simbolismos sagrados, em que tudo era visto, sentido e vivenciado como expressão do sagrado. Um tempo em que a vida era reconhecida como o dom mais precioso, e o merecimento de vivê-la era guardado no coração com a mais profunda gratidão e respeito. Havia uma reverência silenciosa diante da existência, como se cada gesto, cada encontro e cada amanhecer participassem de um mistério maior.

 

Não sei se essa saudade vem do passado ou do futuro. Ou talvez pertença àquela dimensão que se eterniza para além das nossas concepções de tempo, onde passado, presente e futuro deixam de ser experiências separadas. Um espaço que sempre existiu, mas do qual nós, em algum momento de nossa trajetória, nos afastamos, preferindo viver aos saltos entre as lembranças do passado e as expectativas do futuro.

 

Talvez essa saudade não seja o chamado de algo que perdemos, mas o reconhecimento silencioso daquilo que jamais deixou de existir em nós. Não a lembrança de um lugar perdido, mas a intuição de uma realidade que continua presente, aguardando apenas que a consciência volte a reconhecê-la.

 

Toda saudade pressupõe algum tipo de encontro. Talvez nunca tenhamos perdido essa realidade; apenas deixamos de reconhecê-la. Muitos diriam que isso é déjà vu, mas há outras explicações possíveis. Não se trata apenas de uma lembrança ou da sensação de já ter vivido determinada experiência. É algo muito mais sutil e, ao mesmo tempo, profundamente consolidado, como se estivesse cristalizado na consciência.

 

É uma percepção mais forte do que o desejo de simplesmente se conformar ao modo como a maioria escolhe viver – seguindo pelo caminho mais conveniente, acompanhando multidões que caminham sem um rumo verdadeiramente consciente. Há momentos em que essa percepção dói; em outros, desperta uma paz indescritível. São extremos que coexistem na mesma experiência, como se ambos fossem faces de uma única verdade.

 

Por vezes, sinto como se estivesse vivendo em uma realidade paralela. Isso não me faz desprezar o mundo nem a coletividade humana. Ao contrário, desperta em mim um profundo sentimento de pertencimento à humanidade. O que se torna difícil é encontrar um verdadeiro encaixe nesse modelo de exploração e competição que impulsiona as sociedades e leva cada indivíduo a acreditar que precisa superar o outro para ser considerado um vencedor.

 

As glórias e as palmas de ouro são reservadas aos vencedores; aos demais resta o rótulo de derrotados. Essa divisão, aparentemente naturalizada, repercute em todas as escalas da convivência humana e alimenta, direta ou indiretamente, os conflitos que culminam nas guerras. Enquanto a vitória de uns depender da derrota de outros, dificilmente construiremos uma civilização verdadeiramente fraterna. Talvez seja justamente porque a humanidade se afastou dessa experiência do sagrado que essa saudade se torna tão intensa.

 

Vivemos em um mundo no qual a irmandade, a justiça, a ética e o reconhecimento da igualdade essencial entre os seres humanos ainda estão longe de constituir os fundamentos do progresso. Somos, sem dúvida, desiguais em nossas manifestações, talentos, experiências e circunstâncias. Contudo, somos portadores da mesma essência. E é justamente dessa essência comum que nasce essa estranha saudade que insiste em me acompanhar. Talvez essa saudade exista justamente porque ainda não fomos capazes de esquecer completamente o que somos.

 

Há, no entanto, algo que percebo com clareza no ser humano – sua essência é mais forte do que o próprio egocentrismo e o impulsiona continuamente na direção do bem. Existe uma generosidade inata que desperta sempre que ele se vê diante do chamado da solidariedade. A ética, intrínseca a essa essência, manifesta-se cada vez que alguém reconhece no outro não um adversário, mas um igual em essência e semelhante em manifestação.

 

Por toda parte, em meio à confusão e às multidões arrastadas pelos vícios da ambição, da paixão, da indiferença e da vaidade, surgem pessoas que ainda acreditam no projeto humanidade e colocam seus melhores talentos a serviço do bem. São elas que mantêm acesa a esperança de que nossa verdadeira natureza jamais foi completamente corrompida, apenas encoberta.

 

Talvez seja justamente isso que explique minha estranha saudade. Uma saudade que não nasce apenas de memórias, mas também das possibilidades que continuam presentes, aguardando ser realizadas. Não é apenas a nostalgia de um passado; é também a intuição de um futuro possível, como se a consciência reconhecesse um destino que ainda insiste em nos chamar.

 

Essa saudade frequentemente assume a forma de símbolos. Alguns surgem espontaneamente na consciência, como se fossem arquétipos de uma humanidade que, em algum momento, viveu mais próxima do sagrado. É nesse universo simbólico que o Egito antigo surge para mim com uma força particular. Embora eu não possa afirmar que essa sensação corresponda a uma lembrança histórica ou pessoal que possa ser comprovada, há algo em seus templos, em seus símbolos e em sua concepção do sagrado que continuamente desperta em mim essa estranha sensação de reconhecimento. Talvez seja apenas uma imagem construída pela consciência; talvez seja algo mais profundo. Não tenho como saber.

 

Ainda assim, quando penso na grandeza do Egito antigo, especialmente naquilo que as pirâmides, a Esfinge, os templos e seus símbolos parecem representar de uma relação profunda entre a vida, a morte, o cosmos e o sagrado, sinto como se estivesse diante de um fragmento de algo que minha consciência reconhece, embora minha memória não consiga explicar.

 

Talvez essa estranha saudade exista porque a humanidade ainda não perdeu definitivamente o caminho de volta. Talvez aquilo que procuramos não esteja atrás de nós, em alguma memória do passado, mas diante de nós, como uma possibilidade ainda não realizada.

 

Enquanto houver um único ser humano capaz de reconhecer no outro a mesma essência que habita em si, essa lembrança ou intuição continuará viva. E talvez seja justamente essa a natureza da minha estranha saudade – não uma lembrança do que fomos, mas a silenciosa intuição daquilo que ainda podemos ser.

Compartilhe a postagem:

Artigos relacionados

Perdemos o Coração

Nós vivemos a era do cérebro. Esse órgão, de importância inegável, está no centro dos estudos da neurociência. É ele que processa as informações relacionadas à mente e aos pensamentos, participa da formação da consciência e comanda inúmeras funções orgânicas do corpo.

Continue lendo

Totalmente Ignorante de Mim Mesmo

Quantas vezes já me perguntei se estou desperto ou sonhando adormecido. Perdi a conta das vezes e, ainda assim, insisto nessa pergunta. E, em cada resposta que busco, encontro mais mistério e mais ignorância. Não porque o autoconhecimento não seja o caminho

Continue lendo